sábado, 23 de janeiro de 2010 9:04
São Caetano apresenta circuito de bares para combater fama de cidade dormitório
Beto Silva
Do Diário do Grande ABC
0 comentário(s)

São Caetano apresenta aos moradores da região a mais nova rota de bares e restaurantes do Grande ABC. Com a abertura de diversos estabelecimentos do ramo nas avenidas Goiás e Presidente Kennedy, o corredor de entretenimento muda, aos poucos, o rótulo de cidade dormitório para deixar o município com vida noturna ativa.
A concentração de comércios gastronômico e de bebidas em São Caetano soma-se a outras duas referências do setor entre as sete cidades. Os demais polos estão na Avenida Kennedy, em São Bernardo, e na Rua das Figueiras, em Santo André.
Na cidade comandada por José Auricchio Júnior (PTB), a rota de bares que ganha contorno apresenta 41 opções - 34 na Avenida Goiás e sete na Presidente Kennedy - num trecho de apenas quatro quilômetros de extensão. Em média, há um estabelecimento a cada 100 metros.
Das mais de quatro dezenas de comércios, 13 são novos e seis foram ampliados nos últimos meses para recepcionar a demanda e consumidores que aumentam a cada dia. Juntos, são quase a metade do total de botecos instalados nas duas vias - os 22 tradicionais abriram as portas há mais de dois anos, pelo menos.
Os novos empreendimentos chegam à cidade pela necessidade demonstrada pelo perfil da população local - predominantemente de classe média, com bom poder aquisitivo - e o anseio de consumir diversão no quintal de casa.
Invariavelmente, os moradores de São Caetano tinham de buscar distração nas horas vagas nas cidades vizinhas. E se hoje a migração por programas noturnos é diminuta, o município pode inclusive exaltar a qualidade de importar consumidores, até mesmo da Capital.
A cozinha diversificada é um dos atrativos para o sucesso do setor de bares e restaurantes na cidade de melhor qualidade de vida do País. As alternativas vão desde a culinária japonesa ao tradicional churrasquinho brasileiro. Pizzas, frutos do mar, porções das mais variadas e outras especialidades completam o cardápio das casas que fisgam o consumidor pelo paladar.
Os novos empreendimentos não estão apenas nas duas principais vias da cidade. Esses comércios também pipocam por outras importantes direções, como as ruas Visconde de Inhaúma e Amazonas. Segundo dados da Prefeitura, a cidade conta com 1.002 bares e restaurantes (estão inclusos pequenos comércios, com abertura diurna) em seus 15 quilômetros quadrados.
Mas essa não era a realidade anos atrás. Nas décadas de 1980 e 1990, por exemplo, as opções de bares e restaurantes se resumiam a algumas pizzarias isoladas pelos bairros e no Centro. Na Avenida Goiás, o Zangão (esquina com Rua Goitacazes), o Sobradinho (onde hoje funciona o Ragazzo), o Canga's Bar (onde funciona a Galeteria São Caetano) e o Choppinho (atual Salvador Dali) eram os pontos de diversão dos são-caetanenses e vizinhos do Grande ABC e São Paulo.
Outros estabelecimentos, como Minabella, La Panqueca, Paralelo 19 (que existe até hoje, mas mudou o conceito) e Amarelo 20, localizados no miolo da região central da cidade, também fizeram parte da rotina dos jovens de São Caetano há 20 anos.
Para fãs de baladas, ainda há carência de lugares para dançar
A carência dos notívagos e fãs de baladas de São Caetano ainda fica por conta do déficit de casas noturnas. Os moradores da cidade procuram divertimento em ambientes mais fechados nas cidades vizinhas, principalmente São Bernardo e São Paulo, e até mesmo em municípios do Interior, como Atibaia.
Sob este aspecto, porém, a cidade já esbanjou fôlego. Na década de 1990, muitas baladas proliferaram pelas ruas da região central. Adolescentes e jovens se encontravam na casas Zoster, Magic, Hipinoses e Billboard, entre outras.
Com o fechamento gradual desses locais, ficou uma lacuna que anos mais tarde seria preenchida pela Twist's, na Avenida Goiás. O sucesso do estabelecimento foi tanto que vez por outra são realizadas festas, no mesmo espaço onde hoje funciona um bufê, para relembrar situações, encontros e músicas do passado.
Hoje, permanecem somente o Duboiê, na Rua Manoel Coelho, o Portal Music Hall, na mesma via, e a Troppo, na Avenida Goiás.
Restaurante abre por sugestão de cliente que ia a São Paulo
Exemplo da necessidade que a população de São Caetano sente por opções de diversão noturna é a abertura da Galeteria & Pizzaria Puleiro, na Avenida Goiás. O proprietário trouxe a experiência do comércio homônimo da Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo, após sugestão de um cliente que saía da região para consumir na Capital.
"Sempre ouvimos falar bem do município e resolvemos apostar em uma filial aqui. Tem dado certo. Recebemos pessoas de São Caetano e de outras cidades. Nossa expectativa é muito boa", enfatiza o gerente do comércio que abriu há dois meses, André Luiz Zorzi, 30 anos.
Mário Alonso Fuinha, 45, que junto com a mulher Rosana do Carmo, 44, abriu o Bar du Portuga Espetos e Petiscos, acredita no desenvolvimento do negócio pelo crescimento comercial da via nos últimos anos. "Muitos prédios comerciais estão sendo instalados. É preciso atender esse público", analisa o funcionário de empresa de automação bancária, que já cogita deixar o emprego para se dedicar exclusivamente ao estabelecimento.
Setor gera 6 milhões de empregos, com 2,4% no PIB
O ramo de atividade gastronômica e de entretenimento movimenta milhões de reais por ano e tem gerado muitos empregos. Segundo a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), o setor representa hoje mais de 1 milhão de empresas, contribui com 6 milhões de empregos, tem participação de 2,4% no PIB (avaliado em torno de R$ 3 trilhões anuais), com 26% de participação das refeições fora do lar.
Não há dados precisos do volume de recursos que o setor movimenta em São Caetano, tampouco informações sobre a criação recente de postos de trabalho. Mas é fato que a nova rota de bares e restaurantes tem agradado clientes e comerciantes.
O analista de seguros Ronaldo Lopes Soares, 39 anos, é um dos consumidores contentes com os atrativos noturnos que o município apresenta atualmente. "Há alguns anos, não tínhamos muitas opções, e o jeito era sair da cidade para buscar diversão. Hoje, a juventude desfruta de um grande leque de opções, o que é bom para todo mundo", avalia.
A encarregada de departamento pessoal Solange Cristina da Silva, 36, exalta a chegada de estabelecimentos que proporcionam diversão perto da sua residência, no bairro Olímpico. "Sentíamos falta de uma boa comida, um bom lugar para sentar e bater papo com os amigos. Esses novos comércios, próximos de casa, nos incentivam a buscar diversão", observa.
Moradora de Santo André, a supervisora de atendimento Amanda Sentinelli, 30, não deixa mais a cidade depois do trabalho, no Centro de São Caetano. "Saio para fazer happy hour com colegas da empresa por aqui mesmo. Há mais comodidade, fica mais viável para todos. As muitas opções que temos por perto são um atrativo a mais", salienta, ao reclamar, porém, dos preços cobrados em alguns estabelecimentos.
Associação comercial crê em mudança de postura para sucesso
O presidente da Aciscs (Associação Comercial e Industrial de São Caetano do Sul), Ivan Cavassani, acredita que as mudanças de postura do consumidor local e da atitude mais agressiva dos empreendedores são os ingredientes de sucesso do mercado de bares e restaurantes na cidade. "Estamos próximos de São Paulo e de outros grandes municípios, o que torna a concorrência desleal. Mas a visão voltada para o consumo interno tem surtido efeito positivo", destaca.
Cavassani frisa ainda que "a segurança e o conforto" verificados em São Caetano são estímulos para a abertura de novos empreendimentos na cidade, não só no ramo de lazer noturno.
"Vemos evolução em vários setores. Temos estrutura urbana interessante. É um ciclo de desenvolvimento de incentivos. Se o consumo fica no município, há geração de emprego, renda e arrecadação, que retorna à população por ações da Prefeitura", conclui.