José Roberto Alves, 36 anos, é o funcionário que toda empresa gostaria de ter. Chega no horário, não falta, trabalha duro, relaciona-se bem com os companheiros e, para completar, sempre está com um sorriso no rosto. Apesar de tantas qualidades, Zé, como é conhecido, arrumou seu primeiro emprego há pouco mais de um ano. Ele é deficiente mental.
Desde 14 de outubro de 2008, José é um dos cinco funcionários do viveiro de mudas da Ecovias, concessionária que administra o sistema Anchieta-Imigrantes. Os companheiros dele são todos excepcionais: Alexandre Bertoldo de Carvalho, 23, Aline Pereira de Almeida Silva, 22, Cristina Nogueira do Prado, 24, e Elaine Santos Mendes, 23.
No final de novembro, a equipe entregou 35 mil mudas de sansão do campo, planta que será cultivada no canteiro central da Rodovia dos Imigrantes, entre o Kms 11 e 35, para funcionar como cerca viva. "Trabalhar com eles é muito gratificante. Assim como eles aprendem comigo, eu aprendo demais com eles", afirma o responsável pelo time, Antônio Marcos Alexandre, 39.
Antônio foi chamado pela empresa para trabalhar com deficientes por ser calmo e didático. E não se arrepende de ter enfrentado esse desafio pela primeira vez. "Ele é muito legal com a gente. É muito bom estar nesse ramo", diz Alexandre, que só movimenta o braço esquerdo e aproveitou, no mês passado, as primeiras férias trabalhistas da sua vida.
"Ouvir um elogio deles é muito valioso porque eles são inocentes e sinceros", diz o responsável pelo viveiro. Mas nenhum elogio alegrou tanto Antônio quanto ouvir a voz de Elaine pela primeira vez. "A psicóloga disse que ela ficou dois anos sem falar uma palavra. Um dia, depois do trabalho, ouvi ela no telefone. Daí, não parou mais de conversar", conta.
"O deficiente tem muito a ganhar com a inclusão no mercado de trabalho. Melhora sua autoestima. Ele sente que consegue vencer desafios e deixa de ser dependente financeiro da família", opina Maria Aparecida Baptista Soler, coordenadora do serviço de capacitação e orientação para o trabalho da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).
Jovem ensina mãe a cultivar plantas
Se não trabalhasse no viveiro de mudas, Cristina Nogueira do Prado, 24 anos, bem que poderia ser professora de botânica. Em pouco mais de um ano de convívio com as plantas, a jovem, que é deficiente mental, decorou os nomes das espécies e explica, com naturalidade, os processos que fazem as sementes brotarem mais rápido.
"Dia desses falei para minha mãe que não pode jogar fora (a planta) quando a folha cai. O (Antônio) Marcos (responsável pelo viveiro) me ensinou que tem que pegar no cabinho e quebrar um pedaço. Se estiver verde por dentro, vai nascer de novo", explica a jovem, que passou sete anos na Apae.
Cristina diz que gosta tanto do trabalho que, quando chega em casa, passa a falar os nomes das mudas para sua mãe. "A parte de que mais gosto é quando coloco vitamina na planta. Passa dois dias e ela já está boazinha", conta a jovem, que pretende concluir a 4ª série do Ensino Fundamental em 2010 e ainda fazer um curso de informática.
Mexer com computadores, aliás, é uma das especialidades de Aline Pereira de Almeida Silva, 22. "Quando fico em casa, gosto de entrar no Orkut junto com minha irmã", revela a jovem. Para chegar ao emprego, na Rodovia dos Imigrantes, em São Bernardo, ela pega dois ônibus.
No dia 4, as meninas se arrumaram para a festa de fim de ano da Ecovias. Mas ninguém superou José Roberto Alves, 36, no capricho com o visual. Ele pintou o cabelo para esconder os fios brancos e comprou um sapato novo.
Foram os passos de dança copiados do seu maior ídolo, Michael Jackson, que o transformaram na sensação da festa. "Gosto do Michael Jackson. Quero comprar o DVD dele. Também gosto do Tim Maia", afirma o trabalhador, que está juntando dinheiro para adquirir um gravador.