Depois das cenas de selvageria registradas no início da noite de terça-feira nas ruas da favela de Heliópolis, a madrugada foi tranquila na região. O tumulto foi um protesto pela morte da jovem Ana Cristina de Macedo, 17 anos, durante troca de tiros entre guardas municipais de São Caetano e ladrões, na noite de segunda-feira.
Cerca de 50 policiais militares permaneceram nas imediações para evitar que os manifestantes retomassem o conflito que terminou com três ônibus, dois micro-ônibus e quatro carros incendiados, além de duas viaturas da Polícia Militar e outras duas dos bombeiros depredadas.
Segundo o capitão da PM Maurício Araújo, "um policial militar teve traumatismo craniano e foi internado no Hospital de Heliópolis."
Ao todo, 21 pessoas foram detidas e levadas ao 95º Distrito Policial, suspeitas de envolvimento nas depredações. Segundo o motorista de um dos ônibus atacados pelos manifestantes, os agressores estavam armados com pistolas e revólveres e ainda roubaram seu celular.
Os ataques foram convocados por traficantes da favela - a maior da capital -, que chamaram os moradores para o protesto por meios de bilhetes escritos em folha de caderno e xerocados. Os participantes receberam a promessa de receber uma cesta básica como pagamento.
Velório
O velório da estudante foi realizado na sede da Comunidade Evangélica de Heliópolis - próximo do 95º Distrito Policial. Parentes, amigos e curiosos, marcaram presença durante toda a noite e madrugada.
A mãe de Ana Cristina permaneceu o tempo todo no velório e raramente interrompeu o choro e o silêncio. "Eu não tenho condições de falar nada agora. Depois eu vou dar uma entrevista e falar tudo o que eu tenho para falar", prometeu Vera Lúcia.
O namorado da estudante, o servente de pedreiro Bruno de Sousa Alves, 20, esteve acompanhado da mãe e dos amigos. Ele tem uma filha de um ano e oito meses com Ana Cristina, com quem namorava há três anos. "A gente era vizinho e começamos a namorar na casa dela."
Bruno conta que estava dormindo quando, por volta das 23h30, tocou o telefone. "Era um médico do Hospital Heliópolis pedindo para eu vir para cá porque ela (Ana Cristina) estava na UTI em estado grave."
O rapaz, que mora em Carapicuíba, na Grande São Paulo, chegou ao hospital pouco depois das 3h30 e recebeu a notícia da morte da namorada. "A imagem que vem na minha cabeça é dela segurando nossa filha nos braços. No final do ano ela iria morar comigo. Estava tudo certo", lamenta Bruno, chorando.
O servente de pedreiro define Ana Cristina como "uma excelente mãe, carinhosa, amorosa e ótima pessoa." O casal só ficava junto aos sábados e domingos e já havia combinado o encontro para o próximo fim de semana - prolongado pelo feriado da Independência. "Falei com ela entre 12h e 13h da segunda-feira. Estava tudo certo para ela ir para a minha casa. Foi a última vez que nos falamos."
Bruno revela que a filha do casal, Natali Vitória, está com a avó materna e ainda não sabe do que aconteceu. "Ela pergunta toda hora onde a mãe está. A gente não fala nada."
Ana Cristina tem um irmão gêmeo que mora com o pai no estado do Ceará. Os dois são aguardados para o enterro que acontece no início da tarde de hoje, no Cemitério de Vila Alpina. O cortejo deve sair de Heliópolis por volta das 11h.