Economia

Greve se aproxima do fim, mas preços ainda estão nas alturas


A greve dos caminhoneiros praticamente acabou, após se estender por dez dias – nove na região –, com o gradativo desmantelamento dos bloqueios em rodovias de todo o País. O maior legado da paralisação, porém, em um primeiro momento, são os altos preços dos alimentos. Consumidores do Grande ABC se assustam com os valores praticados em supermercados e feiras livres.

O quilo do tomate gira em torno de R$ 7,99 nos estabelecimentos das sete cidades, valor 67,5% superior à média de R$ 4,77 praticada até o dia 21, conforme pesquisa de preços da Craisa (Companhia Regional de Abastecimento Integrado de Santo André). O da batata, que também é vendido por R$ 7,99, saía em torno de R$ 2,94, ou seja, o custo disparou 171,6%.

“Eu iria levar um pouco de tomate, mas nesse preço é praticamente impossível. Vou voltar para casa de mãos vazias”, lamentou o aposentado Paulo Gomes, 59 anos, que foi ao Nagumo da Vila Alzira, em Santo André, somente comprar o produto, mas desistiu. Sem opção de deixar o item na prateleira, o empresário Hélio Rodrigues, 63, levou cinco tomates no mesmo local. “Amanhã (hoje) é feriado de Corpus Christi e eu tenho que comprar, pois tem churrasco e não pode faltar o vinagrete.”

Na Coop do Parque Novo Oratório, na mesma cidade, não havia mais mandioquinha, apenas a placa indicando o preço de R$ 12,99 o quilo. Há 15 dias, o tubérculo poderia ser encontrado, em média, a R$ 4,49, ou seja, o valor subiu 189%.

No Nagumo, os peixes estavam começando a faltar. “Pescada, tilápia e corvina não foram entregues nesta semana, temos somente o que está no balcão”, explicou o encarregado geral Edilson dos Reis.

Na feira, que costuma ter valores mais acessíveis aos hortifrúti, frutas, verduras e legumes também apresentavam custo elevado. Proprietário de barraca de verduras na Rua Tapajós, no bairro Barcelona, em São Caetano, onde grande parte dos itens era vendida a R$ 4 o maço, Carlos José Santana de Jesus, 41, afirmou que sentiu mais o efeito da falta de combustível do que de abastecimento de alimentos. “Como nosso carregamento vem de Suzano, tivemos problemas para ir buscar por causa da falta de gasolina. Fiquei sem trabalhar desde sexta-feira, só voltei hoje (ontem). Meu prejuízo foi de cerca de R$ 600 por dia parado.”

Dono de barraca de tomates, o feirante Marcio Azevedo, 47, também sentiu no bolso os reflexos da paralisação. “Paguei R$ 150 na caixa que normalmente custa entre R$ 50 e R$ 60 e tive que repassar o preço, que triplicou”, disse. “O quilo do tomate italiano custava entre R$ 5 e R$ 6 e foi para R$ 9, o do tipo Débora era R$ 4 e foi para R$ 8,50. Em outros dias, por volta das 11h30 já estava desmontando porque tinha vendido tudo. Hoje (ontem) estou com metade dos produtos neste mesmo horário. Sou feirante há 30 anos e nunca tinha passado por algo parecido.”

DISTRIBUIÇÃO - Na Craisa, que vende alimentos no atacado para estabelecimentos do Grande ABC, a normalização do serviço deve acontecer entre cinco e oito dias. Na noite de ontem, o galpão já estava com 80% da capacidade. “Ainda temos dificuldade com batata, tomate e cebola porque estes caminhões estavam bloqueados em Minas Gerais. Estão custando 40% acima do preço, mas chegamos a pagar até 120% mais”, disse o presidente da Aeceasa (Associação das Empresas da Ceasa do Grande ABC), João Lima. Quanto à mandioquinha, ele afirmou que ainda não há previsão de entrega, pois, como ela é mais delicada, não resiste muito tempo no trajeto.


Diesel pode ser R$ 0,46 menor amanhã

O governo federal anunciou que quer aplicar redução de R$ 0,46 no litro do diesel a partir de amanhã. De acordo com o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, a previsão é a de que o combustível chegue com este desconto nas refinarias após a publicação de norma do Ministério da Justiça. “O compromisso do governo é com o preço que o diesel vai chegar ao consumidor, ao caminhoneiro, ao agricultor e ao industrial. Na sexta (amanhã), o preço nas refinarias será R$ 0,46 menor do que era cobrado em 21 de maio, dia em que o movimento começou. E este desconto será obrigatoriamente repassado.”

De acordo com o Regran (Sindicato do Comércio Varejista de Derivado de Petróleo do ABCDMRR), no entanto, na região o valor do combustível tem chegado com redução de R$ 0,21 em relação ao valor no dia 21 de maio, à média de R$ 3,89 e, portanto, deve ser difícil de aplicar desconto maior do que este nos postos, ao menos por enquanto.

Segundo o presidente do Regran Wagner de Souza, a situação do combustível ainda não está normalizada no Grande ABC, o que só deve acontecer daqui a uma semana para o diesel e o etanol. Para a gasolina, a previsão é a de que a normalização na região aconteça daqui a quatro dias. Isso porque, diferentemente do derivado do petróleo, que vem das refinarias por sistema de bombeio via dutos e depois é transportado, os dois são transportados por sistema rodoviário. “Com a paralisação, até mesmo as usinas de etanol estavam paradas. O diesel também está faltando e, por enquanto, está saindo somente com redução de 10% da Petrobras. Para que este desconto seja repassado, ele precisa estar aplicado no valor das refinarias”, afirmou. O desconto corresponde ao PIS/Cofins e à Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre o combustível, se for aplicado na região, levará o litro a R$ 3,43.

PETROLEIROS - Os petroleiros, que reúnem 1.250 trabalhadores na região na Recap (Refinaria de Capuava), em Mauá, e no Centro de Distribuição em São Caetano, decidiram manter a greve, mesmo após reunião, na noite de ontem, para avaliar a continuidade. Isso porque a AGU (Advocacia-Geral da União) elevou a multa diária estipulada à categoria de R$ 500 mil para R$ 2 milhões. Segundo o coordenador da Regional Mauá do Sindipetro, Auzélio Alves, hoje será realizada outra reunião para nova avaliação.

FRETE E PEDÁGIO - A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) divulgou ontem tabela com preços mínimos referentes ao quilômetro rodado na realização de fretes por eixo carregado. A fixação do frete foi uma das exigências dos autônomos e entrou no acordo firmado entre a categoria e o governo na quinta-feira. A tabela, publicada hoje no Diário Oficial da União, foi elaborada em conformidade com as especificidades das cargas e dividida em: geral, a granel, frigorificada, perigosa e neogranel.

Também começa a valer hoje isenção na cobrança de pedágio para os eixos suspensos de caminhões vazios, conforme anunciado pelo governador paulista Márcio França (PSB). “Com a medida implantada, a Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) fará a devida apuração de valores de desequilíbrio das concessionárias e, a partir da semana que vem, estabelecerá contatos com todas para definir a melhor forma de reequilíbrio”, divulgou a agência.


Combustível chega, mas sob incertezas

Diversos postos da região dispunham de combustível ontem, mesmo que somente por algumas horas, já que o volume entregue pelas distribuidoras foi inferior ao disponibilizado na terça-feira, o que trouxe a incerteza de normalização do abastecimento. Na noite de ontem, 50% dos postos das sete cidades já estavam abastecidos, conforme estimativa do Regran.

Desta vez, porém, a população, que foi abastecer, principalmente por conta do feriado, enfrentou menos tempo de espera, com média de 30 minutos na fila – no auge do racionamento, chegava a duas horas.

O Auto Posto Rimawi, em São Caetano, por exemplo, foi um dos que receberam quantidade menor de combustível. Na terça-feira, dispunha de 30 mil litros. Mas ontem a entrega foi de apenas 10 mil litros, sendo só gasolina, conteúdo que durou por quatro horas. O gerente Luis Gonçalo, 49 anos, falou que não sabe se vai receber hoje. “É difícil saber, porque só me avisam na hora que está vindo. Ainda tem esse problema, acredito que, por ser feriado, não devemos ter abastecimento”, disse.

Já no Centro Automotivo Três Postos, em São Bernardo, que não tinha recebido nada na terça-feira, a chegada de 15 mil litros ontem foi logo às 6h. O volume durou até as 15h, horário que, inclusive, a distribuidora serviu o Posto Portal de São Bernardo, que fica ao lado. O encarregado José Avelino, 51, conseguiu, em 20 minutos, abastecer para aproveitar o Corpus Christi. “Meu carro aguentou até agora, mas como está chegando o feriado, vi a necessidade de enfrentar a fila. Muita gente está aqui por isso.”

O projetista Leonardo Rodrigues, 22, que abasteceu o carro ontem no Gravatinha, em Santo André, estava em situação diferente. Sem ir para o trabalho e para faculdade desde o começo da semana, ele disse que não aguentava mais ficar em casa. “Isso me afetou muito. Consegui a liberação do trabalho, mas na faculdade perdi conteúdo. Quando minha mãe me avisou que aqui tinha gasolina, não pensei duas vezes. Pelo menos vou conseguir resolver minhas pendências”, disse. 

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